quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Antonio Cerqueira Lima: Gotas de Saudade * Antonio Cabral Filho - RJ

Antonio Cerqueira Lima,
Gotas de Saudade

Receba este Presente que te dou.
Formei-o com as gotas do meu pranto,
reflexo de amor do teu encanto.

Olhe-o bem e coloque-o em teu peito,
aqueça-o com calor do coração.
É um colar de pérolas perfeito,
fruta da mais explícita emoção.

Cada pérola é parte desta vida,
de instantes de loucura e de prazer,
de nossos sonhos, de nossos encantos.

E agora, nesta hora em despedida,
deixo como lembrança do viver,
as gotas de saudade dos meus prantos.

*
REFLEXÃO
"Eis que, no firmamento de nossa cultura, surge entre as plêiades uma super nova, iluminando com seu brilho a poética brasileira.
REFLEXÕES
é uma pequena parte da extensa criação poética de Antonio Cerqueira Lima, escondida nos seus guardados literários.
Felizmente para nós,
leitores, vem à luz esta bela seleção de poesias. Vemos aí o poeta navegar entre as várias modalidades de poesia,  indo da brejeira à política e à social; variando da poesia humorística à romântica e à erótica. O autor compõe belas trovas e envereda pelo soneto, aprimorando-se na beleza das imagens. Sua homenagem a Luis Carlos Prestes é uma obra que pode figurar nos mais seletos florilégios. Na sua poesia - MÃE - nota-se uma delicadeza e uma sensibilidade peculiares à quem tem alma de poeta. Vejam a beleza desta estrofe:

"Mãe, tome esta rosa,
Guarde-a no peito
No fundo do leito
Do seu coração."

E vai por aí, o autor nos brindando com sucessivas estrofes de rara beleza e a nós, seus leitores, resta-nos apenas agradecer a publicação, embora tardia, de seus poemas.
Obrigado
Romildes de Meirelles"
&
conheci na extinta Rádio MEC. Ele apresentava um programa de poesia junto com outro fera da poesia: Romildes de Meireles. E quando chegava a hora do programa deles, eu largava tudo e corria para o banheiro, porque não podia ouvi-los no salão da loja aonde eu trabalhava. É que vários amigos meus se apresentavam de vez em quando no programa.
Depois os encontrei em concursos de poesias como jurados e pude verificar o quanto esses dois vates são considerados. Passaram-se alguns anos, e lá vou eu para a feira da Taquara, em Jacarepaguá, comprar goma para fazer tapioca e encontro o Poeta distribuindo um jornal de bairro para a população. Era 2009. Pude verificar que o tempo lhe deixava marcas. Seu cabelo branquinho, o corpo vergado, e a agilidade na fala já não era a mesma dos programas de rádio. Cumprimentei-o e aceitei o jornal. Fui embora e dias depois chegou-me um pacote de livros de um amigo de São Gonçalo. É o Nereis Ribeiro, poeta e ativista cultural naquela cidade. Fui ver a razão e encontrei sua participação no livro, resultado do Concurso de Trovas e Poesias Roquette-Pinto, organizado exatamente por essa persona simpaticíssima Antonio Cerqueira Lima. O livro serviu-me para iniciar a organização de um blog sobre a poesia fluminense, o Novas Letras Fluminenses, ( http://novasletrasfluminenses.blogspot.com.br/ ) e agora para registrar aqui essa pessoa caríssima na poesia carioca e por que não brasileira(?). 

Antonio Cerqueira Lima é professor, escritor, poeta, radialista, ativista cultural com presença em várias entidades, tais como APPERJ, Sociedade dos Poetas Cariocas - SPOC, Academia de Ciêncas, Letras e Artes de Engenheiro Paulo de Frontin - ACLAEPF, Casa do Poeta do Rio de Janeiro - CAPRIJ e Academia de Letras e Artes de Paranapuã - ALAP. É também autor e organizador de diversos livros coletivos e eventos culturais, como os programas de rádio em parceria com Romildes de Meireles "Poesia no Ar" pela Rádio MEC e "Poesia aos Domingos" pela Radio Imprensa; e colaborador da Biblioteca de Jacarepaguá na organização da Ciranda de Poesia. Ah, é carioca do Bairro do Riachuelo e flamenguista!

 Gostaríamos de apresentar aqui o máximo de informações bio e bibliográficas, pois temos conhecimentos de bastidores sobre a sua atividade editorial, bastante extensa, mas no momento devemos citar apenas o que é público. E temos em mãos apenas os folhetins "Educar Para Transformar","Eliana", e seu mais recente livro "Reflexão" lançado em 2009 com o selo Editora do Poeta, cuja orelha consta acima com a assinatura do Ilustre Romildes de Meirelles. A seguir, os dois únicos poemas dele de que dispunha no momento em que fiz a matéria no dia 28 de agosto passado, (

PREÇO

Preço!...
O que é preço?
É a dança dos números
É o valor das coisas
É o quanto se paga
E o quanto se ganha
Por consumo ou trabalho!...
É a perda do espaço
A distância do consumo
Ou o consumo à distância
Pelo cobro que fazem,
São cifrões e cifrões
De uma vida pra nada
Das cifras passadas
Sem se saber porque

Preço!...
Preço de quê?...
Do supérfluo, do prazer
De um prazer que não sei
Da compra de grãos
Do pão... pra comer
A fome matar
Do cobertor pra cobrir
Do barraco pra morar
                    ... se esconder!
De tão longe que é 
Chamam a isso viver?!

Preço!...
Do enterro que vem
Da criança ao nascer
da mulher que pariu
E o filho não viu
E do filho que a luz
Não chegou a enxergar?...

Preço!...
Do aluguel de sua pátria
Da espoliação de sua gente
Da miséria, da fome
De um povo indigente
Mercadores de aluguel
Que se dizem dirigentes
Que por qualquer vil papel
Vendem seu povo, sua gente?...

Preço!...
Preço de quê?...
&

EU...HEIN!?

Eu... hein!?
Tá pensando o quê?!?...
Que minha vidá é de você,
Que eu não tenho o que querer!?...

Eu... hein!?

Posso estar só com você
Te jurar juras de amor
Sem meu coração prender
............................................
Como gostar de você
Sem lembrar de mim, da dor
De um querer tão egoísta
Que faz da mulher artista
De uma peça em que é peça
Descartável, exclusivista?...

eu... hein!?

Vou cuidar da minha vida
vou manter-me bem distante
Para ser mais que querida
Serei sempre aquela amante
Cobiçada, pretendida.

No mistério então criado
Desta vida que colhi
Desprezarei o passado
Serei como o colibri
Beijarei todas as flores
Sugarei então o nectar
Que puder assim colher
Desprezarei o vulgar
Para estar em qualquer lugar
Que o meu corpo então pedir
Vou viver os meus amores
Na cama que eu escolher
E depois, então, pensante, 
Serei mais que a sua amante
Pois serei sua mulher

Eu... hein!?...
Tá pensando o quê!?...
Que minha vida é de você
Que eu não tenho o meu querer!?...
)*
constantes da antologia Roquette Pinto. Mas a vida nos dá voltas, e no dia 01 de setembro, nosso poeta partiu para a sua última jornada, aquela que é eterna, e nos deixou com seus versos e seu exemplo de trabalhador, pai de Antonio e Andreia, avô de Olle, Nathália, Francisco e Manô, a nossa poeta, e amigo sempre afável. E, mesmo com uma "postagemzinha" de dois poemas e um comentário, eu cheguei a ele, não como queria, mas como a força superior determina: a minha ação chegou à família dele e consegui contactar com sua filha, a Professora Andreia Cerqueira, via Facebook. Nos falamos por telefone e fui até ela, na Praça Seca - Jacarepaguá, Cidade Maravilhosa. Conversamos como se nos conhecêssemos há décadas, tão aberto e descontraído foi o nosso encontro. Parece-me que falei com Ele...
É claro que saí feliz, tendo em mãos uma das mais significativas provas da vida de uma pessoa, a sua produção artística fruto do seu espírito transformado em poesia, o livro Reflexões, contendo 159 poemas, o que, sabe-se muito bem, é apenas um vislumbre da produção desse bardo, um poeta de alma refinada, senhor de uma lírica delicadíssima, que a partir daqui seguirá à disposição dos amigos e leitores. É claro ainda que estou iniciando na leitura da obra, e irei descobrindo os poemas por suas significâncias, a parir do que eles virão para esta página ante - sala do conluio dos eleitos: leitores, poeta e poesia.

Alguns Sonetos
////////////////////////

Brumas

São brumas e só brumas de um passado,
de um amor que se fora de repente,
deixando no seu rastro bem ousado,
o veneno letal de uma serpente.

No corpo os rasgos de um furor marcado
pela violência que, insistentemente,
tratava sempre aquele ser amado
com o ciúme voraz de algum doente.

Não gosto de lembrar cenas cruentas
que ficaram no fundo dos meus olhos,
como o bater do mar entre os abrolhos

no vai e vem das ondas mais violentas.
Quero esquecer nas brumas do passado,
este amor doentio e inacabado.
&
Pobre Flor

Largaram-me num canto e ali perdida,
em noite de tristeza, fria e só,
esperei sem ter luz e já sem vida,
na escuridão da noite me fiz pó.

Do azul que já me fez tão conhecida,
desbotaram-se as letras e sem dó
vi minh'alma chorar tão fenecida
e a esperança prender-se em fraco nó.

De repente pegaram-me e abriram
minhas entranhas com grade avidez
lá de dentro o calor então sentiram

e a lembrança em saudade em vão se fez.
Perceberam assim que a pobre flor,
era o símbolo vivido do amor.
&
Flor Rara

Passeava em um jardim belo e florido,
que a imaginação pode plantar,
quando se aproximou um grilo aflito,
querendo a bela flor se enamorar.

Apressei-me em dizer-lhe mesmo assim:
o quanto aquela flor me era cara.
De todas que enfeitavam o jardim
ela foi a mais linda que plantara.

O grilo perguntou-me, então, contrito,
o nome dessa flor que tanto amava
se d'outra ele podia se abeirar.

Respondi-lhe assim com grande emoção
que a flor das flores que aprendi a amar,
possui um belo nome: EDUCAÇÃO.
&
Viagem

Quando eu me for viajar pelo universo,
quero levar comigo não saudades,
mas a certeza que meu simples verso,
embalará sinceras amizades.

Eu subirei ao éter sem reverso
e deixarei com todos a humildade,
de sempre ter vivido em sonho imerso
na pureza do exemplo e na bondade.

Na busca permanente, pois mortal
carrego um coração com grande dor
relicário de amor, fechado em cela.

No célico cantar celestial
me embalarei em músicas de amor
e levarei da vida a face bela.
&
Cortejo V

No galho seco d'árvore, bem alto,
canta o pássaro a última alvorada
imitando talvez, o velho arauto,
anunciando o final da mata amada.

Quem mora longe da mata, no asfalto,
diz não saber do que se passa, nada.
Que a ocupação daria logo um salto
com a economia sustentada.

Quanta mentira! São espoliadores
aqueles que se dizem bons doutores
e são com a Amazônia, preocupados.

Do Amazonas, Madeira, Solimões,
restarão pra contar recordações,
os leitos secos marcando os descampados.
&
Verdades Nuas

Eu sou dos homens das verdades nuas,
despidas das roupagens tão fedidas,
que os homens vestem como fossem suas,
desde o berço começo de suas vidas.

São serviçais do culto social,
que transitam nas sombras com leveza
permeando o seu caráter, sua moral
co'o amarelo, cor da sutileza.

Mãos sujas, corpos brutos, fedorentos
que pelos cantos vivem seus lamentos
como se fossem vítimas do mundo.

Escravas da vaidade e da luxúria,
almas perdidas do universo em fúria
na plena negridão do mar profundo.
&
Nossa Casinha

Quero muito uma casa pequenina
cercada de jardim todo florido
e varanda onde o sol de manhãzinha,
banhe de luz o nosso lar querido.

Em nosso quarto a cama arrumadinha
com lençol branco ou mesmo colorido.
Um crucifixo grande na mesinha
e sobe o chão, tapete de tecido.

Como se vê é uma casinha ainda.
Da sala, no sofá, vê-se tão linda,
a mangueira plantada em seu regato.

No lugar da jaqueira uma cozinha
onde vive a cozer a menininha,
seus sonhos, fantasias num só ato.
*
Cavaleiro da Esperança
Luis Carlos Prestes
03/01/1898 - 07/03/1990

E o brado se fez de guerra.
Pelos campos infindáveis
levantaram-se as enxadas,
fazendo do pó da terra
a mensagem do campino.

Em todo sertão agreste,
da criança ao velho homem,
a notícia fez-se logo:
"Não dá mais pra esperar
o pobe homem coitado,
já sem voz, espoliado,
caminha sem amanhã.

E pelos prados sem fim
a esperança fez-se hora
na voz rouca do caboclo.
No horizonte luz e estrela
em raios longos, vermelhos,
da cor do sangue pintados,
riscam o céu anunciando
os dias de canto e dança
que começam neste instante.

Não é S. Jorge, na lua,
a espreitar nossos passos,
que brilha intensamente.
Olhe bem, pois certamente,
com toda força e pujança,
sua voz de bom guerreiro
chegará lá no infinito
conclamando sem tardança
a levantarem-se as armas
em defesa dos princípios
que se fez em vez primeira,
no começo da história
da república brasileira.

Está gravado, eu bem sei,
em todas as consciências,
e não fugirá jamais
lá do fundo da lembrança,
sua fibra, seu exemplo,
sua voz firme, sincera,
que fez do homem o mito
"Cavaleiro da Esperança".

São cem anos já passados
em caminhos sem estrelas,
mas horizontes bem firmes,
em defesa do operário
e do seu irmão do campo.

São classes trabalhadoras
sem nenhuma proteção.
Todas as leis foram feitas
pelos ricos empresários
que são chamados "patrão".
Prestes levanta a bandeira.
Sai do sul e vai pro norte
correndo o país inteiro
com sua coluna errante,
fazendo do pó da estrada,
no sertão deste Brasil,
a massa bruta querida,
buscando pão, paz e terra
para todo brasileiro.

Propôs a Reforma Agrária
e o fim do latifúndio
na luta viva do povo
contra o domínio feudal.

Em trinta e cinco chamado
pelo povo brasileiro
a *A.L.N. presidiu.
Com propostas avançadas
revolução preparou.

No dia 5 de julho
o brado se fez de guerra,
levantaram-se os quartéis
e todo o povo lutou.
a mão do imperialismo
revolução abafou.
Seus líderes foram presos,
torturados na prisão.
Alguns morreram lutando,
levando no coração
ideais de pátria justa,
livre, sem espoliação.

E a ditadura se fez
espelhada no fascismo.
Em trina e sete uma carta
a nação foi outorgada
calando a boca do povo,
nascia o Estado Novo.

E o pretexto, todos sabem.
Foi um plano engendrado
nas penumbras do poder.
Cohen, seu nome sagrado,
pela imprensa divulgado,
jogava nos comunistas
a culpa de todo mal
porque passava o Brasil.

Com derrota do fascismo
terminava assim a guerra.
Quarenta e cinco eu me lembro;
fomos pro campo do Vasco,
em comício memorável,
comemorar a vitória
contra o mal nazi-fascista.
Prestes nos braços do povo,
aclamado como líder,
esqueceu os seus algozes
e, com discurso inflamado,
conclamou os brasileiros
lutar pela construção
de uma pátria soberana.

Com o voto popular
foi eleito senador.
Sua voz se fez primeira
na defesa intransigente
desta gente brasileira.

O mundo então dividido,
em dois blocos antagônicos,
deu origem a guerra fria.

O Brasil comprometido,
com o imperialismo ianque,
faz a caça aos progressistas,
pondo na ilegalidade
o Partido Comunista.

Mas a luta não parou.
Tendo o **PCUS como espelho,
Prestes empunha a bandeira
da resistência operária
fazendo de cada esquina,
das ruas deste Brasil,
as avançadas trincheiras
desta luta já sem tréguas
de toda a Nação Brasileira.

Foram dias memoráveis,
até que em sessenta e quatro,
num triste dia de março,
em nome da liberdade,
rasgaram a Constituição.
a nação fora calada.
Transformaram este país
em uma grande prisão
sob as ordens do Tio Sam.

Nos porões da ditadura,
massacraram a juventude,
enodoaram as consciências,
castraram as lideranças,
mataram as esperanças
da nossa grande nação.

Mas não foi tão fácil assim!

Cem mil foram para as ruas
num protesto sem igual,
derrubando a ditadura,
acabando o grande mal
que dominara o Brasil.
Foi tão lindo, uma loucura!
Todos juntos de mãos dadas
cantando com entusiasmo
o hino da Pátria amada.

Junto à massa, o Cavaleiro
da Esperança, empolgado,
conclamava o povo amado
a romper com os grilhões,
abrindo bem os portões
da liberdade ao por vir.

Em noventa, um dia lindo,
começou outra viagem
fazendo camaradagem
com todos pelo caminho.
Sendo internacionalista
quando na terra morou.
convicto comunista, 
a igualdade pregou.

Hoje no espaço caminha,
como bom universalista,
deixando pra todos nós
a grande lição da história
gravará em nossa memória
com vigor bem altaneiro
deste líder brasileiro
que jamais fugiu da luta.

Obrigado Cavaleiro
da Esperança de um povo!

Luis Carlos Prestes, falecido em 07 de março de 1990, aos 92 anos de idade, nossa homenagem em seu centenário.

* ANL - Aliança Nacional Libertadora.
** PCUS - Partido Comunista da União Soviética.
*
Mais Antonio Cerqueira Lima

Nosso poeta escreveu muito mais; em verso livre, em trovas, em haicais etc, mas aqui vamos deixar a título de chegada à sua obra os sonetos acima e a homenagem a Luis Carlos Prestes. Para a comunidade de Jacarepaguá, acesse Poetas de Jacarepaguá etc - https://acabral136.blogspot.com.br/2016/09/antonio-cerqueira-lima-reflexao-antonio.html .  E a produção em Trovas será divulgada aqui no Blog do Trovario -http://acf1308.blogspot.com.br/2016/09/trovas-reflexao-antonio-cerqueira-lima.html - e a produção em haicais, aqui no Haicais Blog - http://acabral177.blogspot.com.br/2016/09/haicais-reflexao-antonio-cerqueira-lima.html  . Da mesmo forma, procederei em relação à sua produção em versos livres, dos quais farei uma seleta e publicarei na Revista Literária Virtual Letras Taquarenses Blog - https://letrastaquarenses.blogspot.com.br/2016/09/poesia-em-versos-livres-antonio.html  e assim que tudo estiver pronto, incluirei os links aqui nesta página. Só espero que os amigos, leitores e aficionados à poesia sejam contemplados pelo autor e por mim, seu admirador incondicional.
*

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Hemetério José dos Santos * Antonio Cabral Filho - Rj

Hemetério José dos Santos
pedagogo, escritor, poeta, filólogo, gramático, primeiro professor negro do Instituto de Educação, professor do Colégio Militar, entre outros títulos, viveu no Rio de Janeiro na época de Lima Barreto, e, tanto quanto este, largou o aço em Machado de Assis, acusando-o de "ser negro envergonhado". 

Os amigos do bruxo não gostaram nem um "pouquim..." e sentaram-lhe a pólvora do status quo, através da Revista O Malho, onde a maioria publicava seus sonetos parnasianos tardios, entre eles Emílio de Menezes, um dos pitbuldogues de Machado, que estraçalhou Hemetério com seu mau humor e acidez alcoólica.
Confirmem
http://machadodeassis-memorialdobruxo.blogspot.com.br/

Mas Hemetério, tanto quanto Machadão, serviam ao sistema e corriam em faixa própria. Machado nas letras e Hemetério em língua, filologia, livros didáticos e poesia, além da administração escolar. Estrelismos à parte, cada um tinha brilho próprio. Mas a fundação da Academia Brasileira de Letras foi uma cartada política das maiores, e,  nessa época,  quem tivesse iniciativa para alguma coisa, mínima que fosse, tomava os holofotes para si. Ou seja, Machado morreu, mas a liderança continuou machadista, com os seus séquitos dando continuidade ao seu projeto: fundar um academia literária dentro dos moldes do sistema, servindo a ele e dando prestígio aos seus próceres, o que acontece até agora. Foi nesse "rolo" que dançaram nomes de elevada qualidade literária e intelectual, como Hemetério José dos Santos e Lima Barreto.

Algo mais...
https://pt.scribd.com/document/339085767/Hemeterio-Jose-dos-Santos-2-15a4-Antonio-Cabral-Filho-Rj 
*
https://pt.scribd.com/document/339085670/Hemeterio-Jose-dos-Santos-4893-15820-1-SM-Antonio-Cabbral-Filho-Rj

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Palavrinhas Sobre "Seu Romildes" * Antonio Cabral Filho - RJ

Palavrinhas Sobre "Seu Romildes"
(Foto: blogdoautor)
Conheci "Seu Romildes",
 como aprendi a chamá-lo, nos tempos de seus programas de rádio sobre poesia, junto com Antonio Cerqueira Lima, nas Rádios MEC e Imprensa. Foi ali por volta do final dos anos noventa, quando eu juntava meus bandos subs da periferia pra sair por aí assaltando eventos alheios com recitais penetras, como éramos tratados. É que devido a repressão que se abateu sobre a cultura nesse período, com o fim dos suplementos literários, das revistas culturais, como Escrita, José, Ficção, Inéditos etc, só restou aos poetas irem para a rua e botar as bocas no trombone.
(Foto:Acervo da família)
Numa situação dessas, os programas deles funcionaram como válvulas de escape para a poetada jovem e rebelde, oriunda da poesia marginal da década anterior. Nós fazíamos plantão nas ante - salas das rádios e ficávamos torcendo para conseguir uma chancesinha de falar um poema ao microfone dos seus programas. Aquilo era quase como um "boom" de repentino sucesso para todos nós.
O certo é que quando conseguíamos, saíamos de lá festejando rua afora, tomando vinho barato nos arredores do Campo de Santana, quando não era caipinha caubói na Central do Brasil mesmo. Dalí, nos despedíamos e rumávamos para nossos destinos.
Eu, morava em São Gonçalo, e arrastava comigo uma trupe muito boa de agito, tanto em termos de qualidade poética como de coragem para transformar qualquer local num palco de sucesso. Vou citar aqui, a título de ilustração, o meu amigo Denoir Souza, morador do Bairro Porto da Pedra, bem ao lado da escola de samba. Lá nos reuníamos para planejar novos assaltos líricos, munidos de poemas manuscritos em folhas de caderno. E foi num momento inesperado que tomamos conhecimento do Festival de Poesia da  Porto da Pedra. Marcamos que iríamos "prestigiar" o evento e só esperamos os jurados "cantarem a pedra" sobre os resultados que daríamos inicio a mais um happining lírico, ao estilo heppie dos anos beatlemaníacos. 
"Seu Romildes" e Antonio Cerqueira Lima saíram rumo à capital fluminense e nós ficamos lá com nossos copões de caipvodka noite a dentro. O calçadão da escola ia lotando e, volta e meia, alguém de nós circulava entre os presentes recitando algum poema bem agitativo ao estilo Cântico Negro de José Régio, ou qualquer um de Torquato Neto ou de Eduardo Alves da Costa.
Não posso menosprezar nada do que fizemos. Bem ou mal, o saldo é que ficamos conhecidos. Mas hoje essa alegria se restringe a sentar para tomar um vinho com mais cautela e mais exigências no trato com a poesia, coisa que aprendemos com a dupla de poetas que agitou nas frequências "curtas" ou moduladas muito mais do que nós pelas vias públicas.
No entanto, seja pelas rádios ou nos festivais de poesia das periferias, lá em São Gonçalo, ou em Jacarepaguá com a Casa do Poeta, "Seu Romildes"e Antonio Cerqueira Lima estão marcando presença, agora, nos festivais da poesia eterna de Nosso Senhor lá no Céu. O Cerqueira, como era carinhosamente denominado pelos mais íntimos, partiu com passaporte carimbado em 01/09/2016. Foi adiantar os trabalhos para a chegada do mestre Romildes de Meirelles, que recebeu seu visto no dia 11 de setembro presente.
Ninguém pode fazer ideia da envergadura dessas perdas, que para mim são comparáveis apenas à subtração sofrida por todos com a ausência de um grande agitador cultural dos anos noventa; seu nome:

 Francisco Igreja. Foto:APPERJ
*